Como Tudo começou

Como Tudo começou
MITOS.

26 março 2010

MANUEL BANDEIRA

Nu




Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.


(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.


Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.


Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.


Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –


Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!


Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.


Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.


Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

MÁRIO DE ANDRADE.

Lundu do escritor difícil


Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.


Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.


Misturo tudo num saco,
Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!


Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!...
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh "xavié"
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!


Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês "singe"
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.

23 março 2010

EPITÁFIO


ALVARES DE AZEVEDO


EPITÁFIO

Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...
Insano profanei-a nos amores!
Se da c’roa dos sonhos perfumados
Eu próprio desfolhei as róseas flores!

No vaso impuro corrompeu-se o néctar,
A argila da existência desbotou-me...
O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,
Da nódoa das paixões purificou-me!

E quantos sonhos na ilusão da vida!
Quanta esperança no futuro ainda!
Tudo calou-se pela noite eterna...
E eu vago errante e só na treva infinda...

Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo,
Como o vento do mar no céu noturno
Entre as nuvens de Deus passei dormindo!

A vida é noite! o sol tem véu de sangue...
Tateia a sombra a geração descrida!...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!

Quando as harpas do peito a morte estala,
Um treno de pavor soluça e voa...
E a nota divinal que rompe as fibras
Nas dulias angélicas ecoa!



Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br